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sábado, 17 de novembro de 2007

Gênio *-*


Defenestração


Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.

Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Aonde eles chegassem, tudo se complicaria.

- Os hermeneutas chegaram.

- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam rodas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.

- Alô...

- O que é que você quer dizer com isso?

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.

- Vamos ter que trocas a traquinagem. E o vetor está gasto.

Plúmbeo devia ser o barulho que um copo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.

A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar deve ser um ato exótico praticado por poucas pessoas . Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:

- Defenestras?

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.

Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em:

- Aquele é um defenestrado.

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavras exata.

Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.

Ato de atirar alguém ou algo pela janela!

Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar açguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vicío como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.

- Les defenestrations. Devem ser proibidas.

- Sim; monsieur le Ministre.

- São um escândalo nacional. Ainda mais agora com os novos prédios.

- Sim, monsieur le Ministre.

- Com os prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí pra cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ser convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.

- É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor...

- Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar - diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.

Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.

- Querida...

- Mmmm?

- Há uma coisa que eu preciso lhe dizer...

- Fala, amor.

- Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:

- Estou pronta para experimentar tudo com você. Tudo!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:

- Fui defenestrado...

Alguém comenta:

- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!

Agora mesmo me deu uma estranha vontade de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar essa crônica. Se ela sair é porque resisti.



(Luís Fernando Veríssimo)


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Paulista do ABC, 22 anos. Mas queria mesmo morar em NY, no centro da moda e da elegância. Saltos altos, esmaltes, Audemars Piguet, Cartiers, Louboutins e Chanel. Aqui é somente High Level.

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